Quem são os criminosos por trás do garimpo na Amazônia

"Não identificar e prender políticos e empresários que bancam e ganham com o crime pode parecer uma complacência do Estado"

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Ferreira Gabriel, por Lúcio Carril*

Publicado em: 23/08/2024 às 12:01 | Atualizado em: 23/08/2024 às 12:01

Quando o tráfico distribui drogas pelo mundo, ele está destruindo vidas e famílias.

Drogas sintéticas vêm criando epidemias, como no caso do fentanil nos EUA.

Os opióides são devastadores e já chegaram ao Brasil, há muito tempo.

Enquanto o crime organizado do tráfico ganha bilhões com sua sanha arrasadora, outro tipo de crime chegou, implacável, na Amazônia: o garimpo ilegal.

O garimpo é antigo por aqui, mas não nessa nova perspectiva.

Nesta semana estamos vendo na mídia a ação violenta de garimpeiros contra a missão do Estado em combater o crime ambiental e a destruição do bem natural na Amazônia, especificamente em Humaitá, no Amazonas.

Garimpeiros não são o problema. São objetos da exploração desumana de um novo crime organizado na Amazônia, formado por empresários e políticos inescrupulosos.

Garimpeiro é um trabalhador em condição precária de trabalho.

Nenhum trabalhador assalariado ou de renda obtida da sua força de trabalho tem condições de comprar balsas e equipamentos de milhões de reais. Aí tem dedo desse novo crime organizado.

A Polícia Federal e os órgãos ambientais cumprem sua missão de combater o crime ambiental, destruindo o objeto do crime.

A falha está na falta de uma ação de inteligência para identificar e prender quem se esconde por trás da ação criminosa.

Prender o trabalhador explorado é paliativo. Claro, se ele é criminoso, não pode ficar impune, mas não identificar e prender políticos e empresários que bancam e ganham com o crime pode parecer uma complacência do Estado, uma estrutura historicamente a serviço dos poderosos.

O garimpo é terrivelmente destruidor.

Ele dispersa comunidades inteiras, adoece e mata seres vivos.

É deletério. Sua exploração ilegal remonta períodos da acumulação primitiva do capital.

A ação do Estado brasileiro está correta em combater o crime na sua efetivação, mas isso é um plantecure na solução do problema.

Tem que ir à raiz. Tem que desarticular a organização criminosa de políticos e empresários que bancam e ganham milhões com a exploração ilegal e predatória do garimpo na Amazônia.

Não é difícil saber. Esses criminosos se manifestam publicamente em defesa desse crime. É preciso agir com rigor, pois há muitos agentes públicos por trás da bandidagem.

Está dada a dica. O garimpo ilegal é um crime organizado diferenciado do crime de tráfico.

É uma organização que envolve políticos, empresários e agentes públicos.

Sem uma ação estruturante contra os chefões, toda operação será para enxugar gelo.

*O autor é sociólogo.

Foto: Polícia Federal/divulgação